O filósofo e teórico francês Michel Foucault, na obra Problematização do Sujeito: Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise (1984), apreende o que se constrói como “loucura” enquanto uma estratégia que se opera sobre os corpos: “A loucura não pode ser encontrada no estado selvagem. A loucura só existe em uma sociedade”. Ao longo da história, comportamentos dissidentes da norma foram marginalizados — na Idade Média, a exclusão atingia os hereges; hoje, as pessoas em sofrimento psíquico. Em um contexto de tamanho desconhecimento sobre a saúde mental, qual é o papel da arte na efetivação de políticas do bem viver?

Cláudia Freitas de Oliveira, coordenadora do curso de História da Universidade Federal do Ceará e do grupo História, Loucura e Saúde Mental, traça uma cartografia do sofrimento psíquico e da lógica de enclausuramento para compreender os horizontes possíveis. “A loucura institucionalizada é um tema que data o século XVIII e chega no Brasil no século XIX. É possível fazer uma relação muito pertinente da loucura associada a uma pobreza que está em desordem com a normatividade. Temos que fazer a ponderação que, quando se fala em ‘doença mental’, o alvo da institucionalização em asilos, hospícios e hospitais são pessoas que estão em situação de grande vulnerabilidade sobretudo sociais e econômicas. A marca classista é muito forte”, avalia.

No Ceará, o primeiro hospital psiquiátrico criado foi o Asilo de Alienados São Vicente de Paula, em 1886. “Os anos de 1870 foram marcados por uma profunda seca que assolou o Estado e algumas elites, à época, avaliaram necessário criar instituições asilares para abrigar pessoas consideradas indesejadas socialmente. A partir dessas evidências, podemos fazer esse questionamento: o que realmente é a loucura? Como pensar a loucura enquanto doença mental? Se ela é doença, por que é dado um tratamento de segregação e punição a uma pessoa que tem que ser acolhida, protegida e cuidada? Os hospícios e manicômios são lugar de punição. O tratamento tem que ser sempre em liberdade e no convívio do indivíduo no seu território, junto com a sua comunidade, com os seus familiares, amigos e cultura. A arte, por exemplo, é a forma que o indivíduo lida com ele mesmo, com o outro e com o mundo — por isso que ela também tem esse viés terapêutico, em última análise ela ressignifica as angústias e dores do mundo”, defende Cláudia.

Na década de 1970, entre contínuas denúncias de torturas, maus-tratos e mortes em hospitais psiquiátricos e abrigos, o movimento de Reforma Psiquiátrica promoveu a reestruturação da assistência psiquiátrica no Brasil e criou novos dispositivos de atenção à saúde mental. “Todavia, antes mesmo dessa época, podemos observar que ocorreram experiências que buscavam modificar o modo como as pessoas em sofrimento psíquico eram tratadas. Assim, o trabalho de Nise da Silveira constitui-se como um marco muito importante, haja vista propor as atividades expressivas, ainda na década de 1940, como recursos terapêuticos eficazes em contraposição ao uso de práticas e tecnologias em voga naquele momento — como, por exemplo, o eletrochoque, o coma insulínico e a lobotomia”, explica Mariana Liberato, professora do Departamento de Psicologia da UFC e coordenadora do projeto Pasárgada – Promoção de Arte, Saúde e Garantia de Direitos. Pioneira na criação de ateliês de pintura e modelagem para os internos dos centros psiquiátricos, a médica alagoana Nise da Silveira é uma referência na luta por uma saúde mental democrática. “O trabalho de Nise demonstra que a arte, no campo da saúde mental, configura-se como um importante recurso terapêutico não agressivo no cuidado às pessoas em sofrimento psíquico. Sobre a questão da contribuição da arte para reabilitação psicossocial, é importante ressaltar não só o caráter terapêutico das práticas expressivas como um todo — em sua dimensão sensível e estética de criação de sentidos e de si mesmo —, mas também o reconhecimento de um outro lugar para as pessoas em sofrimento psíquico na sociedade, ao dar visibilidade às suas potencialidades e capacidades, e a produção de outros laços sociais, fundamentais nesse processo”, continua Mariana.

Referência na relação entre arte e saúde mental, Arthur Bispo do Rosário produziu mais de 800 obras ao longo dos 50 anos em que morou na antiga Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Nascido em meados de 1911 em Sergipe, viveu o desencadear de sua psicose em dezembro de 1938, quando vislumbrou sete anjos azuis descendo do céu em nuvens especiais. “Quase trinta anos depois desse primeiro surto, Bispo escuta uma voz que lhe dá a seguinte missão: “Está na hora de você reconstruir o mundo” e é a partir desse comando que ele inicia, incansavelmente, a sua obra, em uma tentativa de reproduzir tudo o que conhecia do mundo”, explica Raquel Adeodato, psicanalista e mestra em Psicologia pela UFC. “O material que ele dispunha para produzir sua obra era basicamente o que encontrava em seu cotidiano: a linha do próprio uniforme desfeito, os que coletava no lixo da Colônia ou que os funcionários compravam no comércio local. Para Arthur Bispo do Rosário, a arte teve um caráter de estabilização de seu quadro, mas isso não significa que terá para todos. Cada caso precisa ser visto de forma singular. Percebo como a produção e criação de objetos de cunho artístico nos espaços de tratamento pode ter efeitos de liberdade e potencialidade daqueles sujeitos que são constantemente aprisionados por suas doenças e transtornos. Nos CAPS onde atuei durante dois anos, muitos dos pacientes que não se envolviam em nenhuma atividade proposta ou não conseguiam participar de grupos por comprometimentos diversos, participavam ativamente dos espaços de criação artística e realmente se apropriavam disso. Quando a gente fala de saúde mental, é importante lembrarmos também dos usuários de álcool e outras drogas e como eles também são afetados pela arte. As pessoas que fazem uso dos serviços de saúde mental são amplamente marginalizadas pela sociedade, taxadas de inúmeros rótulos negativos e, muitas vezes, desconhecem seu potencial até, efetivamente, se permitirem vivenciar o processo criativo”, finaliza.

Em Fortaleza, o Museu da Cultura Cearense realiza até 30 de junho a exposição A resistência e as lutas por um novo olhar para a loucura, com 19 pinturas e cinco esculturas dos artistas J. W. Crispim, Osmarina de Sousa Rodrigues e Milvando Peixoto — todos atendidos pelos Centro de Atendimento Psicossocial (Caps). Com curadoria de Cláudia Freitas e Raimundo Nonato Lima, também integrantes do Fórum Cearense da Luta Antimanicomial, a mostra busca construir o debate sobre uma sociedade livre de manicômios. Ouvidor de vozes há 26 anos, Milvando Peixoto vê na pintura uma canalização de questões psíquicas. “Há um poder místico muito forte e constante nos acontecimentos da nossa vivência. Conheci na arte os símbolos e as cores”, argumenta o usuário do Caps de Messejana.

J. W. Crispim, escultor com obras expostas na América Latina, também encontrou na arte um outro olhar sobre si. Usuário do Caps da Regional IV, foi internado no Hospital de Messejana após uma série de tentativas de suicídio. “Foram cinco internações, eu perdi minha autonomia e ganhei feridas na alma. Eu me sentia preso e várias vezes fui torturado e amarrado. Os manicômios não cuidam, eles são depósitos humanos”. Com 61 anos, Crispim começou a pintar telas e fazer esculturas somente no Caps. “Quando eu cheguei no Caps, já senti a diferença em relação ao hospital: não era uma prisão, era uma coisa aberta. Fui atendido por uma psicóloga, por uma terapeuta ocupacional, e descobriram em mim um talento que até eu desconhecia. A nossa luta é por efetivar o serviço dos Caps. As pessoas ainda nos rotulam muito como deficientes mentais. Elas só esquecem um detalhe: se você tirar o ‘defici’, fica “ente”. Nós somos gente, inteligentes, competentes, eficientes e resistentes a todo esse retrocesso que atual governo está fazendo com a saúde mental”.

Via O Povo Online
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