A coordenadora escolar foi diagnosticada com síndrome do pânico após sofrer um ano de ameaças e xingamentos de um aluno que acabou por agredi-la dentro da escola. Uma professora teve os lábios e o céu da boca cortado de um soco dado também por um aluno, que antes tentou prendê-la usando uma cadeira. Outra professora precisou ser socorrida de um quase linchamento de familiares por supostamente ‘tomar lado’ em uma discussão entre alunos.

A violência voltou a assolar as salas de aulas, desta vez sem idade ou condição socioeconômica fixa. O Miséria visitou escolas e conversou com professores, coordenadores e diretores de escolas em Juazeiro do Norte e atestou a insegurança e a violência com que profissionais da educação e estudantes são obrigados a conviver.

“ELE ME BATEU”

Vítima de violência escolar, Mônica (nome fictício para preservar a fonte) relata momentos de tensão psicológica e um cotidiano afogado em xingamentos e ameaças dentro da escola de ensino fundamental. Um aluno indisciplinado de 11 anos, com família desestruturada e histórico de transferências, foi o causador do pânico na coordenadora.

“Eu era a única pessoa a quem ele ainda temia na escola. Terminou o recreio e ele estava trancado dentro do banheiro. Fui falar com ele. Ele me empurrou contra a parede e me ameaçou. Disse que iria bater em mim. Eu tirei meus óculos e baixei os braços. Ele bateu em mim. Me arranhou o rosto e os braços, com muita violência”, contou com a voz fragilizada.

O mesmo aluno também é acusado de invadir a escola a noite, arrombar a cantina e destroçar o estoque de merenda. Em outro episódio, Mônica revela que ele chegou a encontrá-la na cidade e dizer em público “ainda vou dar cabo a essa professora”.

“ARMA NA CABEÇA DO PROFESSOR”

Com quase 30 anos de profissão, Vera (nome fictício para preservar a fonte) diz ter visto cenas deprimentes dentro das escolas por onde passou.

“De tudo a gente já presenciou. De agressão verbal de aluno para professor, de professor para aluno, de pai para aluno, de pai para professor… Aqui na escola já teve pais que chegaram na sala de aula para bater no filho alheio por conta de briga entre alunos”, lembra.

A violência moral é mais recorrente. Do primeiro ano do fundamental em diante já é possível identificar casos de xingamentos, palavrões, ameaças e importunação em sala de aula.

“Eles chamam as professoras de raparigas na frente da sala toda. Mandam as professoras tomarem no cu”, conta Vera, que leciona no ensino fundamental do 1º ao 5º ano e Escola para Jovens Adultos (EJA). “A impressão é que a violência nas escolas aumentou exorbitantemente de alguns anos para cá”, afirma.

O cenário de violência se agrava no Ensino Médio. Não sai da memória da professora Maria Firmino as cenas e relatos de agressões sofridos por colegas e por ela mesma.

“Houve o relato de colegas de que um aluno havia entrado e colocado a arma na cabeça da professora porque tinha tirado uma nota baixa”, revela.

Ela mesma já foi vítima de violência física e moral, quando teve a boca cortada com um soco ao tentar impedir uma briga entre alunos e uma cadeira atirada contra ao pedir que o aluno saísse da sala.

“Nós estamos indefesos. Não há lei que nos proteja”, afirma a professora Maria, relatando ainda a recorrência de casos em escolas públicas e privadas.

Mesmo com o artigo 331 do Código Penal prevendo que desacato a funcionário público no exercício da função ou em razão dela gera detenção ou multa, na percepção da coordenadora Mônica, o Estatuto da Criança e do Adolescente resguarda o adolescente infrator, mas não se preocupa em proteger o profissional agredido.

“Não temos segurança. É um risco que todos nós corremos”, lamenta.

“O PROBLEMA NÃO SÃO AS CRIANÇAS”

Na medida em que são postos à duras provas, profissionais da educação avaliam com cuidado a atitude dos alunos indisciplinados e infratores.

Em processo terapêutico há três anos pelo que viveu no último trabalho, Mônica ainda conclui: “Não consigo ter raiva daquele menino, mas fiquei traumatizada. Quando a criança chega a esse ponto é porque sua vida foi muito sofrida e ela passa todo esse sofrimento para a escola”.

Professora Vera analisa que a violência gerada entre jovens alunos tem razão do local onde está e situação socioeconômica. “Cheios de problemas em casa, eles acabam extrapolando dentro da sala de aula. Eles não conseguem dialogar nem com os colegas e nem conosco”, diz.

“O problema não são as crianças, mas o que as rodeia. Elas não tem mais suporte familiar ou social. Nosso diagnóstico aponta para uma razão que vem do seio familiar, mais complexa, mas não impossível de ser solucionada”, conclui.

O CAMINHO DA MEDIAÇÃO

“Aqui nós trabalhamos com a política do não revidar”, explica a coordenadora Clara (nome fictício para preservar a fonte), de uma escola de ensino fundamental na cidade. “Nós tentamos ensinar às crianças que os problemas podem ser resolvidos na conversa e não em briga”.

Com mais de mil alunos de 6 aos 11 anos, a escola tenta aproximar os alunos através da confiança, do amparo e do afeto. “Geralmente o ‘não’ eles tem em casa. Aqui tentamos conversar, ouvir e explicar”, explica. Se a indisciplina persiste em mais de três ocorrências semelhantes, os pais são chamados. A última instância é a transferência compulsória.

Como medidas de prevenção à violência, a Secretaria de Educação de Juazeiro do Norte oferece desde o início do ano o Núcleo de Mediação que realiza trabalho dentro do programa Ceará Pacífico, buscando mediar conflitos escolares de maneira pacífica.

“Só podemos proteger os professores e alunos tendo conhecimento de cada caso específico”, afirma o secretário de Educação Nildo Rodrigues. “Tendo conhecimento, procuraremos o Judiciário, através da Vara da Infância e Juventude, para acabar com este conflito”.

Outra medida é o encaminhamento dos jovens para programas sociais no Centros de Referência da Assistência Social ou contra turnos esportivos. No tocante ao bullying, drogas e violência, há também uma parceria da Secretaria de Segurança e a Câmara de Vereadores com circuito de palestras.

Por Alana Soares/ Agência Miséria
Miséria.com.br

Jornalista Ricardo Cavalcante
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