O aluno falta uma vez a cada 15 dias. Depois, a ausência nas aulas passa a ser semanal. Em pouco tempo, a frequência ocorre apenas em dois dias na semana. A escola, aos poucos, perde esse estudante. Quando o abandono não se concretiza, esse adolescente já faltou tantas vezes que, embora esteja dentro da margem de 25% de faltas permitidas pelas normas educacionais, acumula déficits de aprendizagem.

Essa realidade atravessa as escolas do Ceará, de Norte a Sul, e não poupa a rede da Capital. É experiência difícil, mas felizmente, gestores, professores e os próprios estudantes não estão inertes diante dela. Pelo contrário. O Ceará tem desenvolvido ações expressivas para reverter o abandono escolar. Comparecer a 200 dias letivos, conforme estabelece a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação, talvez não seja um grande desafio para parte dos estudantes no Brasil. Mas, se nesse percurso, há uma quantidade expressiva de alunos, sobretudo no Ensino Médio, que têm problemas para concretizar o ciclo de aprendizagem, como não tentar ajudá-los?

 

A estudante Maria Alicy Neris de Oliveira, 17 anos, moradora de Santana do Cariri, no Sul do Ceará, não tinha certezas, tampouco experiência em “reverter possíveis abandonos escolares”, mas o incômodo gerado pela sensação de “ver os amigos deixarem a escola sem concluir o ano letivo” foi estímulo para ela, junto com duas amigas, para criar um projeto de busca ativa a fim de evitar que alunos faltosos abandonem a escola.

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Aluna do Ensino Médio, na Escola Adrião do Vale Nunes, ela conta que quando ingressou na instituição, em 2018, o número de abandono era alto. Em 2017, segundo a estudante, 79 alunos deixaram a escola. Conforme o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inpe), no local, a taxa de abandono chegou a 14,7%. Em 2018, quando a iniciativa dela e de outras duas amigas já estava em curso, o número caiu para 59 abandonos no período letivo.

Estratégias

Mandar uma carta para um colega de sala, que começou a faltar de modo recorrente, chamando-o de volta. Tentar fazê-lo saber da sua importância e que a infrequência era sentida pela turma. A estratégia funcionou. O amigo regressou e, segundo ela, contou que passava por problemas que o impediam de continuar.

Foi hora de avançar na ação de resgate. Junto à escola, as alunas desenvolvem estratégias para acolher os estudantes que passam por dilemas familiares, vulnerabilidades, falta de renda, dentre outros fatores. Motivos que fazem o Estado do Ceará manter um índice de 5,1% de abandono escolar, o que significa a saída de 16 mil estudantes da rede estadual no decorrer do ano letivo, conforme foi apresentado na edição de ontem (6) do Diário do Nordeste.

“Além das cartas, fizemos algumas visitas, que a gente chama de visitas animadas. Descobrimos também alguns fatores que influenciavam eles a virem para a escola e também os que os desmotivavam. Isso através de algumas entrevistas e palestras nas escolas municipais e na nossa, estadual”, conta Alicy. Os efeitos são expressivos e, neste ano, até o primeiro semestre, a escola registrou apenas um abandono escolar. A ação virou o projeto chamado “Células Motivadoras”. A partir dele, 20 alunos, divididos em três grupos, são responsáveis pelo acompanhamento sistemático do 1º, 2º e 3º anos na escola.

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Segundo a Secretaria Estadual da Educação (Seduc), diversas políticas estão sendo desenvolvidas para tentar alterar índices de evasão e abandono no Ceará. Uma delas é o “Programa Nem 1 Aluno Fora da Escola”. A iniciativa é feita de forma conjunta entre o Governo e os 184 municípios cearenses para tentar combater a saída de crianças e jovens de 4 a 17 anos da escola.

Na Capital, o diretor da Escola Estadual Clóvis Beviláqua, no Centro, Henrique Sampaio, cuja taxa de abandono é de 12%, explica que nas ações deste Programa, a escola fixa nas salas a frequência dos alunos com sinalizações verde, amarelo e vermelho. Desse modo, os estudantes acompanham o índice de comparecimento e “ficam em alerta”. Outra estratégia, explica o diretor, é a gincana escolar, em que cada turma é uma equipe competidora. Uma das tarefas é a frequência. A cada bimestre, a equipe com maior índice de frequência é vencedora e a direção premia os alunos.

Já na rede municipal de Fortaleza, a desistência não é expressiva, mas o monitoramento é constante. Segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME), o índice de abandono, em 2017, era de 1,4%. Já em 2018, recuou para 0,6%. A grande estratégia desenvolvida nas unidades da rede, segundo a SME, é o acompanhamento diário da frequência dos alunos, com apoio de monitoramento da Superintendência Escolar. O trabalho é articulado com a plataforma Busca Ativa Escolar, alimentada pela gestão das escolas e registra em tempo real as faltas de cada estudante.

Algumas escolas municipais têm iniciativas próprias. A Escola João Saraiva Leão, no bairro Curió, é uma delas. “Nós temos aqui um sistema de monitoria. São alunos mais velhos que vêm no contraturno. Por exemplo, temos o Leandro, que é um ex-aluno, mas todos os dias ele vem. Ele passa em todas as salas e pega com os professores os alunos que faltaram naquele dia. Ele entrega para a secretaria que abre o sistema e coloca a frequência diária”, explica a coordenadora pedagógica, Viviane Bastos.

O estudante Leandro Gomes, hoje, está em outra escola e faz a atividade voluntária na antiga instituição. A direção, com o processo de monitoramento regular que ele auxilia, ao detectar um número expressivo de faltas, faz o contato imediato com os pais. Nos casos mais complexos, a escola aciona também o Conselho Tutelar, que passa a monitorar o caso.

Efeitos

Outro impacto destacado pela coordenadora é que nas situações em que o abandono não se concretiza, muitas vezes, o aluno que faltou os 25% permitidos pelas normas é afetado por déficits. “A gente já sabe que o aluno que frequenta 75% não tem o rendimento satisfatório na escola. O que acontece? A gente só consegue recuperar a defasagem de aprendizagem deles devido ao número de faltas, no contraturno. O aluno que faltou 25% não garantiu o direito de aprendizagem”, diz Viviane. Para reverter a diferença de carga horária é “necessário ampliar a jornada escolar e estruturar políticas e programas de fortalecimento de aprendizagem”, acrescentou.

Via Diário do Nordeste

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Jornalista Ricardo Cavalcante

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