Seu Gilberto estampa no rosto um sorriso moleque, e, na camisa, a foto de três gerações da família dedicada ao Teatro de Bonecos. O filho, Marquinhos, 40 anos, e o neto Miguel, de apenas 6, orgulham o calungueiro natural de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, mas adotado por Icapuí, cidade no litoral leste do Ceará. Ele enxerga nos dois a continuação de uma história que, aliás, acaba de ser lançada em forma de livro-reportagem pelo jornalista cearense Jadiel Lima. “Gilberto Calungueiro: Se Esse Boneco Falasse” reúne várias palavras num total de 215 páginas, mas têm algumas letrinhas que só alguns leitores poderão colecionar: as escritas pelo próprio biografado.

“O senhor autografa para mim?”, perguntei timidamente ao mestre bonequeiro durante a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Ele respondeu “desconfiado” que sim, “mas só com a ajuda do meu filho Marquim, porque aprendi a escrever faz pouco tempo”. Dos 76 anos bem vividos, passou 70 sem conhecer a grafia. Sua relação com as palavras sempre foi mais fácil na hora de falar, mas nem por isso desistiu dessa “amizade”.

G-I-L-B-E-R-T-O F-E-R-R-E-I-R-A. Letra por letra, Marquinhos soletrou. As mãos do pai, já muito habilidosas na arte dos bonecos, fizeram da página uma espécie de tolda, onde a assinatura, antes escondida, virou a principal atração. “Vá me desculpando, não tenho costume”, disse o mestre calungueiro encabulado. E o filho completou: “esse é o primeiro autógrafo dele no próprio livro”.

Quando a sobrinha Vanessa começou a se alfabetizar, em 2013, uma luzinha acendeu na imaginação de Gilberto. Ensaiou com a garota as primeiras vogais e consoantes, e esse exercício o levou até a escola mais próxima. Aprendeu o básico. Suficiente para hoje, seis anos depois, registrar a assinatura no livro escrito em sua homenagem.

Mestre Gilberto emociona-se quando fala da obra desenvolvida por Jadiel Lima como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará (UFC). O material foi lançado com a ajuda da publicitária Bárbara George após a aprovação no XI Edital de Incentivo às Artes, da Secretaria da Cultura do Estado. “Aí só tem história verídica, boa”, diz o homenageado. E tudo foi ele mesmo quem ajudou a escrever.

“Gilberto tem uma memória que parece um gravador, então conversar com ele é ter o prazer de, vez em quando, vê-lo recitar versos antigos, cantigas que ‘só ele sabe’, que ele escutava ainda na infância, fábulas do tempo em que os bichos falavam. O homem é uma biblioteca da oralidade. Ouvi-lo é ouvir o idioma de Icapuí. No livro, tento enfatizar o modo dele próprio de falar, de alguém que experienciou a fundo a vida cultural daquela cidade, mas outros litorais e sertões também, nas andanças dele por cidades do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba”, contextualiza Jadiel.

O cenário da biografia é a casa do calungueiro. O autor faz questão de dizer que o trabalho “não enfoca apenas na obra (de Gilberto), no teatro de bonecos, na profissão dele. Há uma tentativa de captar a sensação de acompanhá-lo, de conversar com ele debaixo de um alpendre”. E é nesse lugar que conhecemos um bonequeiro cuja vida se confunde com a dos próprios bonecos.

“Não há mais como separar pessoa de arte, homem de calunga”, escreve Jadiel no primeiro capítulo da obra. Muito disso se deve à longevidade do profissional com a brincadeira. É um dos bonequeiros com a trajetória mais longa do Brasil. O boneco Baltazar Sousa Cabral, ele carrega desde a infância, e é por meio dele que fala de si e de sua cidade. Sempre no improviso.

“O que a gente precisa é brincar, se conhecer, escutar essa história, pra não repetir o que não presta e continuar fazendo o que é bom, prazeroso. Esse, inclusive, é um dos legados do próprio calunga ou Casimiro Coco ou João Redondo ou babau ou mamulengo, uma arte que Gilberto nos traz com maestria”, finaliza Jadiel.

O livro-reportagem pode ser encomendado ao autor e enviado pelos Correios. Só não esqueça de pedir o autógrafo.

Serviço

Livro “Gilberto Calungueiro: Se Esse Boneco Falasse”, de Jadiel Lima.
Para adquirir um exemplar, entrar em contato por meio das redes sociais:
Instagram: @seesseboneco
Facebook: facebook.com/seesseboneco
E-mail: [email protected]
Preço: R$30,00 + custo de envio por Correios
Contatos para shows: (88) 9 8846-1674 e [email protected]

Fonte: G1 CE

Jornalista Ricardo Cavalcante
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