Após o anúncio de cancelamento do Ceará Junino 2020 devido à pandemia do novo coronavírus, a Secretaria da Cultura do Estado (Secult) informou, nesta quarta-feira (22), que analisa a possibilidade de criar um edital de premiação para grupos de cultura popular tradicional, que incluiria as quadrilhas juninas cearenses.

O cancelamento do edital Ceará Junino, divulgado na última segunda-feira (20), foi recebido com preocupação entre membros do setor cultural, que temem pelo comprometimento dos festejos de São João do próximo ano. O novo certame ainda não foi detalhado pela Secult.

“Tentamos segurar, para ver se o cenário se alterava de acordo com as medidas que seriam tomadas de enfrentamento no Estado”, disse o secretário da Cultura, Fabiano Piúba. “No entanto, nós compreendemos o Ciclo Junino como uma celebração da vida, uma festa de renovação da colheita. Então, nós estamos adiando o edital, mas não o ciclo da vida. Vamos fazer do próximo período junino uma grande festa de renovação por meio da economia criativa e pulsante que é o junino em nosso Estado”, acrescentou.

“Com o cancelamento do edital, ficamos numa situação bem complicada, porque a gente conta com esse fomento do Ceará Junino, que nos ajuda nas despesas dos nossos trabalhos. O edital foi cancelado sem nenhuma conversa prévia para que a Secretaria da Cultura entendesse como os movimentos de quadrilha estão nesse momento”, afirma Tácio Monteiro, diretor da União Junina do Ceará e membro do comitê gestor Ceará Junino.

 

Segundo ele, uma média de 350 grupos juninos atuam no Estado, impulsionando uma cadeia produtiva, composta por sapateiros, costureiros, cabeleireiros, músicos, aderecistas, entre outros integrantes envolvidos diretamente na composição das apresentações. “Eles pararam agora por causa do isolamento social, mas os trabalhos já estavam bem adiantados, iniciados ainda no segundo semestre do ano passado”.

Também no posto de presidente da Quadrilha Junina Babaçu, de Fortaleza, Tácio, então, junto a outros participantes do movimento, sugeriram à Secult que transferisse o recurso para um novo edital, de caráter de premiação. Assim, na visão deles, os grupos poderiam ao menos resolver uma parte das atividades iniciadas com a cadeia produtiva, evitando gerar endividamento das quadrilhas juninas e também o comprometimento do São João de 2021.

Futuro ameaçado

Presidente da quadrilha junina Nação Nordestina, de Juazeiro do Norte, Jhone Barros dimensiona os impactos do cancelamento do Ceará Junino 2020. Com uma década de história, o grupo que ele lidera coleciona mais de 500 títulos – entre estaduais, regionais e nacionais –, mas teme pelo futuro sem o auxílio do edital.

Eles já estão gastando quase R$ 70 mil para custear todas as atividades ligadas às apresentações que fariam neste ano, envolvendo 80 pessoas. Nesse processo, devem a profissionais informais quase R$ 30 mil.

“Meu grupo, como outros, vem trabalhando desde 2019. Assim que encerramos o São João do ano passado, já começamos a trabalhar, vendendo rifa, fazendo bingo, movimentos que tragam fundos para que possamos fazer mais um espetáculo no ano seguinte”, detalha.

Diante da decisão da Secult de estudar a formulação de um edital de premiação para grupos de cultura popular tradicional, Jhone Barros é enfático: “Com a Secretaria abrindo o edital para todas as manifestações culturais do Ceará, muitas pessoas de todas as categorias vão enviar propostas e o movimento junino ficará mais uma vez prejudicado, já que nossa categoria é a mais fraca. E já estamos sofrendo por ter gastado muito apostando nas festas deste ano”, lamenta.

 

“Acredito que, se for uma premiação diretamente para o Ciclo Junino, a gente vai, sim, ser beneficiado; mas se for para a cultura popular de um modo geral, o junino vai ser prejudicado mais uma vez”, conclui.

Via G1

Jornalista Ricardo Cavalcante
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