Em tempos passados, antes da pandemia, Angélica Soares, estudante várzea alegrense de 17 anos, precisava fazer um percurso de 50 quilômetros diariamente para ir e voltar da escola. Os dilemas da vida da jovem interiorana foram acentuados com o isolamento social e a dificuldade de acesso adequado à internet. O grande sonho de ingressar no ensino superior poderia ser comprometido, mas ela disse enxergar os problemas como obstáculos que a fortalecem na caminhada.  Assim, Angélica criou uma estratégia de estudos em casa e com o apoio dos professores alcançou 940 pontos na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) aplicado neste ano. 

Angélica vem de uma família de agricultores e mora com os avós no sítio São Nicolau, localizado na Zona rural de Várzea Alegre. Cheia de sonhos, a jovem estudante diz querer se desenvolver na vida acadêmica fazendo mestrado e doutorado futuramente. “Eu gosto de fazer várias coisas, entre as quais as que mais gosto é aprender coisas novas. Gosto de estudar e ensinar o que sei.” diz.

Mesmo antes da pandemia, Angélica enfrentava problemas para ter acesso aos estudos. Fazia um percurso entre a zona rural e a cidade que somavam aproximadamente 50 quilômetros por dia. As maiores dificuldades no ensino presencial incidiam com o período chuvoso. “Aqui tem muitos riachos e córregos, então era comum ter enchentes e esses trechos ficarem impossibilitados de passar, tanto de ônibus, quanto carro, moto ou até mesmo a pé.”, relata. Para não perder as aulas, nos meses de inverno ela ficava na cidade, hospedada na casa de uma prima. 

A professora de língua portuguesa e redação, Isabel Eliane, 48, acompanhou a trajetória de Angélica e a descreve como uma aluna inteligente, dedicada aos estudos, comprometida e que sempre compartilhou os conhecimentos com os colegas. “Ela é questionadora, curiosa e atenta ao que o professor explica, ela procura evoluir a cada etapa. Raramente repete o mesmo erro num texto.”, conta a professora.

DIFICULDADES DIGITAIS

“Eu usava dados móveis do celular para poder participar das aulas remotas e fazer todas as atividades.”, conta Angélica sobre o momento que se viu mais necessitada de acesso à internet. “Eu chegava a colocar créditos de forma semanal para poder participar das atividades escolares, mesmo assim a qualidade da Internet não era muito boa.”, completa. O aparelho utilizado foi um de modelo antigo, que limitou atualizações de aplicativos exigidos pela escola para transmissão das aulas e dos conteúdos didáticos.

Para conseguir o bom desempenho no ENEM, a jovem iniciava a rotina de estudos logo pela manhã utilizando os livros didáticos e seguia pela tarde com as aulas remotas. Embora, muitas vezes tenha deixado de participar por falta de créditos ou área de cobertura. 

Mesmo assim ela não desanimou. “Busquei focar nos meus objetivos e tentei enxergar essas dificuldades não como empecilhos, mas como obstáculos que apareceram no meu caminho para me fortalecer.”, diz.

ESTRATÉGIAS DE ESTUDO

As principais estratégias seguidas pela aluna para alcançar a nota 940, foi aplicar ao máximo técnicas de escrita para uma boa redação e muito treino. Além disso, conhecer o processo de correção possibilitou que Angélica tivesse uma visão crítica sobre seus próprios textos. 

A professora Eliane acrescenta que a prática de leitura e a busca por novos repertórios para possíveis temas da redação do Enem são fatores que também contribuíram para o sucesso da jovem na redação do exame nacional.

Nas demais áreas do conhecimento, Angélica teve um desempenho regular. Com a nota geral, a neta de agricultores escolheu cursar licenciatura em Geografia no Instituto Federal do Ceará (IFCE), no campus de Iguatu.

“Eu espero que assim como no ensino médio, seja repleto de aprendizados e que tenham algumas dificuldades para que eu consiga aprender um pouco com elas.”, diz sobre o futuro que a aguarda. 

Por Emanuel Máximo
Miséria.com.br

Jornalista Ricardo Cavalcante
Siga-me

Comentários no Facebook