O São João é uma das manifestações culturais mais tradicionais do Nordeste. Mas, nos últimos anos, uma pergunta tem ganhado força entre brincantes, quadrilheiros e defensores da cultura popular: as quadrilhas juninas ainda são as protagonistas das festas ou foram colocadas em segundo plano diante dos grandes shows?

Historicamente, os grupos juninos sempre foram a alma dos festejos. São eles que mantêm viva a tradição, contam histórias através das apresentações, preservam costumes e movimentam milhares de jovens durante meses de preparação. No entanto, a cada ano, parece que esses grupos perdem espaço para atrações de renome nacional que consomem parcelas cada vez maiores dos recursos públicos destinados aos eventos.

O nome continua sendo “festival junino” ou “festival de quadrilhas”, mas, na prática, os holofotes muitas vezes estão voltados para artistas como Gusttavo Lima, Raça Negra, Natanzinho Lima, Zé Cantor, João Bosco & Vinícius e até mesmo Alok. Não se trata de questionar a qualidade desses artistas, mas de refletir sobre qual é o verdadeiro foco de uma festa criada para celebrar a cultura junina.

Maracanaú é um exemplo frequentemente citado nesse debate. O município se consolidou como um dos maiores polos juninos do Brasil, atraindo milhares de visitantes e grandes atrações musicais. Ao mesmo tempo, surgem questionamentos sobre o espaço e os investimentos destinados aos grupos juninos locais, responsáveis por manter viva a tradição que deu origem a esses eventos.

Entre os exemplos lembrados por integrantes do movimento junino está a Quadrilha Cumpade Justino, reconhecida em todo o Ceará por sua trajetória e conquistas. A discussão levantada por muitos quadrilheiros é sobre a diferença entre os investimentos destinados aos grandes shows e os recursos disponibilizados para os grupos culturais que representam a essência da festa.

Enquanto cachês milionários são anunciados para artistas nacionais, diversas quadrilhas continuam enfrentando dificuldades para custear figurinos, cenários, transporte, alimentação e manutenção das atividades ao longo da temporada. Em muitos casos, os recursos obtidos por meio de editais são considerados insuficientes para atender às necessidades básicas de um grupo que se apresenta em diversos municípios.

O debate não é sobre ser contra os shows. Grandes atrações ajudam a atrair público, movimentam a economia e fortalecem o turismo local. A questão levantada pelos defensores da cultura popular é outra: por que não ampliar também os investimentos nas quadrilhas juninas, garantindo melhores condições para aqueles que mantêm viva uma tradição centenária?

Mais do que uma discussão sobre entretenimento, o tema envolve prioridades culturais e a valorização dos artistas locais. Afinal, sem as quadrilhas, os festivais juninos perderiam parte importante de sua identidade.

O desafio para gestores públicos é encontrar um equilíbrio entre o espetáculo dos grandes palcos e o fortalecimento das manifestações culturais que deram origem ao São João. Porque, no fim das contas, a grande pergunta continua ecoando entre os quadrilheiros: quem são as verdadeiras estrelas da festa junina?

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