Denúncia feita por servidor revela que a sala de estabilização da emergência está com pacientes acima da capacidade. Além disso, itens médicos básicos usados em crianças e adolescentes em estado grave não constam no estoque

Estar internado numa unidade de saúde pressupõe a necessidade de tratamento para a cura de uma enfermidade. Mas como garantir assistência se a própria rede apresenta graves sintomas de um atendimento debilitado? Apesar de ser referência no acolhimento de crianças e adolescentes, o Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), funciona com ala superlotada, leitos improvisados e sem equipamentos básicos.

A sala de estabilização da emergência ou de reanimação como é conhecida, tem capacidade máxima para alocar cinco crianças em estado clínico grave. O espaço, porém avoluma atualmente um total de 18 pacientes, mais de três vezes do que o indicado. A alternativa imediata foi adaptar um quarto de observação para receber todos os internados.

“Uma sala que tem dezoito, sendo que oito ficam lá e os outros dez na sala de observação. (Ela foi) transformada em sala de reanimação depois que todos os pacientes que estavam lá foram retirados, empurrados para uma ala que tem leitos – e quem não cabe, vai para o corredor. Está um caos. Não era nem para ter pacientes internados nesse espaço, só a admissão e encaminhar para o leito de UTI”.

O cenário descrito acima foi denunciado por um servidor público, que preferiu não ser identificado. O profissional relatou com detalhes o que a reportagem do Sistema Verdes Mares (SVM) não teve autorização para registrar, já que foi barrada por seguranças logo na entrada do Hospital Albert Sabin, na manhã de ontem.

A falta de leitos se esbarra em outro delicado problema: não bastasse o alto volume de pacientes em uma mesma ala, equipamentos necessários para a reversão do estado de saúde de clientes graves estão em falta no hospital, como bomba de infusão contínua, monitores e até respiradores.

Conforme o servidor, duas crianças que estavam internadas no Hias, sendo uma recém-nascida e outra de um ano de idade, ambas do sexo feminino, morreram nos dois últimos dias. Ele optou por não divulgar a causa do falecimento, mas adiantou que a quantidade excessiva de pacientes potencializou a gravidade da saúde delas. “(Os quadros das) crianças eram graves sim, poderiam ter morrido mesmo na UTI sim, mas a chance de óbito aumenta muito quando está numa superlotação”.

Após dois pedidos de respostas enviados ao Hias, com questionamentos sobre a razão dos óbitos das crianças, os motivos que implicaram na superlotação, as medidas tomadas pela gestão para normalizar os atendimentos e a falta de itens médicos, a unidade não se posicionou a respeito de todas elas.

Em nota, o Albert Sabin limitou-se a explicar que as demandas emergenciais aumentam, porque é “comum nessa época de calor intenso o aparecimento de doenças respiratórias e gastrointestinais, assim como as viroses”. O Hias informou que possui um plano de contingência para o período com reforço dos protocolos de assistência e segurança à saúde dos pacientes.

Contudo, na contramão do hospital, o servidor público reforça que a situação é crônica. “O ano inteiro a sala de reanimação fica cheia, só que nessa época piora. E dessa vez está bem pior. A direção está dando apoio, mas não tem como fazer milagre”, avalia.

Corredômetro

Até o último dia 31 de janeiro, mais de 300 pacientes estavam internados nos corredores de hospitais de Fortaleza, segundo dados do Sindicato dos Médicos do Ceará. Tão pequenas, mas já inclusas numa métrica perversa, vinte crianças estão nesta situação no Albert Sabin. Como agravante, a redução de leitos hospitalares nos últimos oito anos no Estado: números do Conselho Federal de Medicina (CFM) mostram que 920 leitos foram incluídos no corte.

Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Edmar Fernandes, as alas de cirurgias pediátricas foram as mais prejudicadas no corte. “Foi uma das que perderam mais leitos. É uma situação de penúria que as crianças sofrem. A pediatria está sendo maltratada em Fortaleza”, lamenta, pontuando que a problemática é resultado da gestão pública ineficaz.

“Se uma criança chega com apendicite, precisa de cirurgia imediata. Como não tem equipamento, ela fica internada por mais tempo, vai para UTI, e começa a complicar. O sistema fica prejudicado pela falta de investimento, e gera um gasto enorme com a permanência do paciente”.

Via Diário do Nordeste

 

Jornalista Ricardo Cavalcante
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