O Brasil deixou o mapa das nações onde falta comida para parte significativa da população. O dado é positivo, mas não encerra o debate. Em Fortaleza, a realidade ainda escancara contradições duras de engolir.

Em um bairro considerado nobre da Capital, famílias são vistas diariamente recolhendo alimentos descartados por um supermercado. A cena se repete no horário do almoço. Quando o caminhão de coleta encosta, homens e mulheres se aproximam antes mesmo de o lixo ser levado. Reviram tambores em busca de frutas, legumes, pães, cereais e até restos de carne que possam ser reaproveitados.

Moradores registraram a situação em vídeo e enviaram as imagens ao jornal. A equipe de reportagem esteve no local na última sexta-feira (27) e confirmou o que as gravações mostram: gente disputando o que foi jogado fora.

“Todo dia eles trazem e a gente pega pra comer. Vem pão, verdura, às vezes arroz. Ando aqui faz é tempo”, conta Maria, 51 anos, nome fictício. Enquanto fala, divide carcaças e peles de frango com um homem em situação de rua. As moscas pousam sem cerimônia. Ninguém parece notar.

Naquele dia, além dos ossos, Maria levou um saco grande com dezenas de pães carioquinhas. Disse que parte seria repartida com vizinhos. Segundo ela, já são mais de 20 anos percorrendo mercantis atrás de sobras para complementar a feira de casa.

O contraste incomoda. De um lado, números oficiais apontam redução da insegurança alimentar. De outro, cenas que parecem não ter saído do passado. A fome pode ter recuado nas estatísticas, mas, nas calçadas, ainda dá as caras — silenciosa, persistente e difícil de ignorar.

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