Não foram somente a chita e o chapéu de palha que deram lugar aos figurinos ornamentados com pedrarias e plumas: os espaços que recebem as quadrilhas juninas (e julinas) são ocupados por grandes estruturas, parte do espetáculo no qual se transformaram as festas de São João, Nordeste afora. A profissionalização das apresentações é um dos fatores que aquecem a economia no período.

De acordo com a Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará (Fequajuce), o movimento junino – incluindo também o setor alimentício e dos shows musicais – é responsável por girar, em média, R$ 130 milhões no Estado por temporada. Os festejos também garantem pelo menos oito mil empregos.

“Cerca de 30% dessa movimentação financeira está concentrada na Capital cearense. Entre os profissionais envolvidos estão costureiros, chapeleiros, empresas de transporte, de montagem de estruturas, gastronomia. Todos os segmentos são impactados de alguma forma nesses meses”, explica o diretor da entidade, Anderson Assunção.

O olhar apurado sobre o movimento junino lhe permite dizer que o Estado se destaca ante outras localidades do Nordeste quando se fala nos grupos de quadrilha. “Em termos de movimento junino, o Ceará é um dos estados que mais movimenta, que tem maior representatividade. Ouve-se muito falar que o São João de Campina Grande (PB) é gigantesco, que o do Rio Grande do Norte é grandioso. Realmente, são estados que têm eventos juninos gigantescos, mas todos são muito voltados para as bandas e os cantores de sucesso e não para a cultura popular tradicional”, pontua o diretor da Federação.

Entre quadrilhas filiadas e não-filiadas à Fequajuce, existem cerca de 400 grupos no Estado, dos pequenos aos de maior porte. Em média, são realizados durante as comemorações cerca de 350 festivais. “Hoje, temos quadrilhas no Estado com orçamentos de R$ 50 mil a R$ 500 mil. Depende muito da produção de cada grupo. As que contam com um número de brincantes bem maior demandam um gasto elevado com figurino e transporte, por exemplo”, detalha Anderson Assunção.

O orçamento cada vez mais robusto decorre da profissio-nalização perseguida avidamente pelos grupos, o que é visto por Anderson como uma das principais vitórias dos movimentos quadrilheiros no Ceará. “É o crescimento e a profissionalização do movimento. Muitos grupos param por falta de dinheiro. Outros surgem. Outros continuam crescendo. Hoje, é muito difícil avaliar o nível das quadrilhas nos festivais devido a alta qualidade das apresentações. O porte dos espetáculos é muito alto”, explica o diretor da Fequajuce.

Despesas

Alguns grupos chegam a ter um orçamento superior a meio milhão de reais. É o caso do grupo quadrilheiro Paixão Nordestina, que acumula premiações ao longo de 22 anos de história. De acordo com o presidente, Herbinho Rodrigues, fazer o São João acontecer demanda mais de R$ 600 mil. “O principal gasto é figurino; R$ 105 mil. Se cada brincante apenas dançasse, não gastasse nada, o custo seria maior ainda”, revela.

O figurino é pago pelos próprios brincantes, conforme explica o presidente da Paixão Nordestina. Neste ano, os integrantes tiveram que desembolsar R$ 3 mil pela indumentária, cuja marca é o brilho e desenhos que remetem à trajetória de vida do comunicador Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”, tema escolhido para o espetáculo do grupo em 2019.

Ao todo, são 50 pares em quadra, além de 12 atores que fazem a peça do casamento e ilustram outros momentos escolhidos da vida do comunicador para serem retratados ao público. Herbinho Rodrigues lembra ainda que a quadrilha conta com um vice-presidente e mais dois diretores, que ajudam a formar comissões para manter o funcionamento mais organizado.

Enquanto fala sobre os esforços para não deixar de sair no São João dando o melhor de si e estimulando o melhor do grupo, Herbinho Rodrigues divide a atenção com os brincantes, que executam os últimos preparativos antes de entrar em quadra pela segunda vez no São João 2019. “Nós escolhemos o tema ‘Chacrinha’ em agosto do ano passado. E desde então, tem sido uma pesquisa exaustiva. Li duas biografias, tem pesquisa musical. É um roteiro com começo, meio e fim”, detalha.

O figurino é um dos resultados da pesquisa. O valor da indumentária é pago ao longo do ano, antes do São João, em taxas. “A gente faz a primeira taxa de R$ 400, entregando uma rifa pra eles venderem. Também fazemos uma festa anual para arrecadar recursos. É uma forma de ajudar, porque a gente sabe que a situação do País não anda boa”, reconhece o presidente da Paixão Nordestina.

Além do desembolso dos brincantes, Herbinho Rodrigues relata que também “se aperta” para fechar a conta dos gastos da quadrilha, que entre outros custos, arca com a banda: R$ 50 mil pelo acompanhamento musical durante toda a temporada de São João. Designer gráfico, ele destina cerca de R$ 10 mil do próprio bolso à paixão pela festa. “Algumas pessoas aqui, a gente sabe que a única família que tem é a gente. Não gera lucro, pelo contrário, sai do salário”, diz . “Mas é gratificante”.

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Foto: Camila Lima

Editais de apoio

Um dos meios de reduzir o peso no bolso dos organizadores e dos próprios brincantes são os editais de apoio disponibilizados tanto pela Prefeitura de Fortaleza como pelo Governo do Estado. O edital da Prefeitura disponibilizou R$ 1,065 milhão para contemplar 71 projetos em 2019, sendo 35 de grupos juninos adultos e 15 de grupos infantis, além de 21 festivais juninos. Cada projeto recebe R$ 15 mil.

O Governo do Estado, por meio do XXI Edital Ceará Junino, disponibilizou R$ 3,15 milhões para o apoio de 136 projetos, entre quadrilhas juninas e festivais. Os recursos disponibilizados pela Prefeitura neste ano tiveram uma queda de 4% na comparação com o montante do ano passado. Já o valor do edital do Governo do Estado do Ceará é 4,6% maior em relação ao do edital junino de 2018.

Esforço anual

A Paixão Nordestina foi contemplada nos dois editais, o que não aconteceu com o grupo junino Arraiá Zé Testinha. A tradicional quadrilha junina não conseguiu ser contemplada no edital do Estado neste ano por problemas na apresentação da inscrição. Isso não foi motivo, entretanto, para desanimar, de acordo com o organizador e marcador Reginaldo Rogério, o “Zé Testinha”. “A gente faz bingo, forró, pé de serra… Eu já vendi dois carros, já fiz muita loucura para sair no São João. A gente chega e diz ‘ah, não temos dinheiro’, mas não fica a ver navios, não. Coloca em quadra e assim vai. Eu costumo dizer que quem toma conta de quadrilha é louco, mas tem que ser mesmo, viu?”, brinca Reginaldo Rogério.

Ele conta que o orçamento do grupo junino de 43 anos fica na casa dos R$ 70 mil. A indumentária, gasto mais pesado para todos os grupos, fica por conta da organização da quadrilha. Além da dedicação à dança, os brincantes também contribuem afinando habilidades na confecção de alguns itens do figurino. “Cada brincante vira um artesão, porque ele começa a produzir a própria vestimenta. A gente dá os materiais e ele executa”, relata o organizador.

A quadrilha adulta é composta por 82 pessoas, sendo 32 pares brincantes, 5 profissionais de acompanhamento musical e quatro voluntários que atuam no casamento, além de dois marcadores, contando com o “Zé Testinha”.

Para conseguir administrar tudo com maestria – trabalho que exerce ao lado da família, Reginaldo Rogério precisa tirar dois meses de férias da empresa na qual trabalha como técnico em eletricidade para acompanhar o ritmo do São João. “Eu passei por 19 empresas. Todas as que não me davam férias no período junino, eu abandonava o emprego e ia cuidar da quadrilha, mas eu tinha o amparo (financeiro) dos meus irmãos e dos meus pais”, relembra com carinho.

Assim como Herbinho Rodrigues, presidente da Paixão Nordestina, Reginaldo Rogério espera que a festa nunca acabe e garante que força de vontade não falta, apesar do cenário econômico recessivo, que castigou muitos outros grupos juninos que deixaram de dançar este ano. “É uma brincadeira, mas ao mesmo tempo é um negócio sério, porque envolve pessoas e dinheiro. Tem que saber administrar. Se não souber, pra te derrubarem é ‘facim'”, reflete o “Zé Testinha”.

Via Diário do Nordeste

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