A quantidade de leitos pediátricos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Fortaleza diminuiu 30% em dez anos, de acordo com dados do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES). A situação preocupa pais e especialistas, que temem prejuízos à saúde das crianças.

Em maio de 2009, a Capital dispunha de 1.058 unidades, sendo 1.030 de pediatria clínica – destinadas a crianças que precisam permanecer em hospitais por mais de 24h – e outras 28 de pediatria cirúrgica. Já maio de 2019 encerrou com 738 leitos do SUS, sendo 627 clínicos e 111 cirúrgicos.

Atualmente, Fortaleza tem 904 leitos de internação pediátrica, segundo o CNES, somando as unidades do SUS com outras 166 particulares – que também passaram por redução: eram 174, em 2009.

Para a professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), Magda Almeida, a falta de espaço apropriado para a internação pode tornar ainda mais vulnerável o quadro clínico dos pacientes.

“Quando essa criança não está numa enfermaria sendo observada, é um risco porque a segurança clínica do paciente diminui, ficando mais propensa a ter manifestação de piora. As pessoas que estão lá devem fazer o máximo para dar o maior cuidado possível, mas o corredor não é o local mais adequado para internação”, frisa a professora.

Unidade de referência no atendimento a crianças e adolescentes no Ceará, o Hospital Infantil Albert Sabin (Hias) apresenta cenário de superlotação. Em nota, a unidade justifica que o aumento da demanda é comum nesta época de calor intenso e chuvas.

No entanto, por causa do excedente, pacientes estão sendo acomodados em leitos improvisados no corredor da unidade. Conforme vídeo enviado ao Sistema Verdes Mares, macas estão enfileiradas fora dos quartos.

Uma dirigente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde do Estado do Ceará (Sindsaúde-CE) confirmou à reportagem que a superlotação “acontece e está acontecendo”. Conforme denuncia, a Central de Regulação da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) legalizou, no ano passado, “18 leitos de corredor”, que deveriam ser ocupados em situações de emergência. “Mesmo que o leito seja legalizado, eles não eram para estar no corredor. Esse leito fica no trânsito de todos os profissionais, de visitantes, perto das máquinas. Isso é até um risco para as crianças”, alerta.

Para a autônoma Roberta Ferreira, que precisou levar o filho com febre e dores abdominais ao Hias, aceitar a internação da criança no corredor foi a única saída. O garoto, de dois anos de idade, recebeu o primeiro atendimento na noite da última terça-feira (19), mas conseguiu o leito temporário no dia seguinte, cerca de sete horas após a admissão na unidade.

“Não cabe mais nenhuma criança. É uma briga para passar alguém ali porque está muito lotado. Quando alguém vai passar, eu preciso levantar, afastar a maca do meu filho e tirar a cadeira onde eu fico sentada”, detalha a mãe da criança.

Além dessas enfermidades, o Hospital Albert Sabin atende a pacientes oncológicos. “Nossos filhos passam por um tratamento agressivo e ainda precisam ficar nos corredores sem leitos e sem atendimento decente, enquanto têm vários leitos prontos”, desabafa uma mãe, que não quis se identificar. O filho dela foi internado no Hias, nesta semana, com nível muito baixo de células de defesa, que ajudam no combate a micro-organismos, como bactérias e fungos. Pacientes com essa condição correm maior risco de desenvolver infecções graves.

Há vagas

Enquanto crianças que fazem tratamento contra o câncer estão na fila de espera por leitos adequados, 14 unidades recém-inauguradas no Centro Pediátrico do Câncer (CPC), hospital da Associação Peter Pan, estão fechadas por falta de profissionais de saúde. No dia 30 de abril, esses novos leitos – seis enfermarias com leitos duplos, seis consultórios médicos e dois leitos de cuidados paliativos – foram entregues através da expansão do CPC, executada em parceria com o Hias.

Ao todo, o Centro dispõe de 95 leitos, incluindo os ociosos. Em tempo, 81 estão ocupados, ou seja, o estabelecimento opera com a capacidade total. A Associação Peter Pan declarou, por meio de nota, que “se solidariza com a situação das mães e seus filhos”, destacando que “está fazendo tudo o que é possível para suprir a demanda e proporcionar conforto, segurança e alento às famílias”. A instituição diz que atendeu a mais de 2.600 crianças em 2018.

Em nota, a Secretaria da Saúde do Ceará informou que foi “autorizado o financiamento de novos leitos do Centro Pediátrico do Câncer do Hospital Infantil Albert Sabin”, citando que “as providências para esse fim estão sendo tomadas”. Contudo, a pasta estadual não esclareceu se há previsão para a contratação de equipes médicas.

VIA DIÀRIO DO NORDESTE

Jornalista Ricardo Cavalcante
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